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Análise tática: como Thomas Tuchel pode começar a renovar a Inglaterra

A Inglaterra de Thomas Tuchel volta a campo neste fim de semana depois do terceiro lugar na Copa do Mundo.

Apesar de ter conseguido a melhor campanha no torneio desde o título de 1966, muitos torcedores dos Three Lions ainda estão com a cabeça na dolorosa derrota para a Argentina na semifinal.

Mas isso precisa ficar no passado. A Inglaterra agora tem quatro jogos em duas semanas para abrir a Liga das Nações da Uefa, na nova data Fifa estendida. A campeã mundial Espanha é a primeira adversária, e ainda há dois jogos contra a República Tcheca e um contra a Croácia.

É uma chance de a Inglaterra se testar contra os melhores do mundo. Mas quem ficou fora da Copa também terá a oportunidade de reivindicar espaço e renovar a dinâmica do grupo.

Neste artigo, vamos abordar

  • A abordagem de Tuchel
  • Construindo conexões no ataque
  • Mudando a postura defensiva

A abordagem de Tuchel

Quando assumiu a Inglaterra, Tuchel falou da necessidade de um time direto.

“[O time] precisa refletir a Premier League”, disse o alemão. “A Premier League é uma liga fisicamente muito exigente, muito direta. Acho que precisamos ter coragem para jogar como uma seleção inglesa.”

Isso ficou muito claro na Copa do Mundo, tirando o bizarro 6 a 4 sobre a França na disputa de terceiro lugar. A Inglaterra teve um número alto de contra-ataques rápidos, dribles tentados e ações no último terço em geral. E ainda houve o volume de gols esperados (xG) em bolas paradas, seguindo a tendência recente da Premier League.

Radar da Inglaterra na Copa do Mundo 2026: contra-ataques, dribles, ações no último terço e xG em bolas paradas

A Inglaterra também teve uma das melhores defesas do torneio. Apesar dos oito gols sofridos em sete jogos (antes da partida contra a França), o time de Tuchel cedeu pouco mais de 1,00 de xG por jogo, uma das melhores marcas da competição.

Havia, porém, uma fraqueza clara, fosse por jogadores ou por escolha tática: a Inglaterra não tinha intensidade na pressão e raramente recuperava a bola no último terço, na comparação com os outros times da Copa.

Estatísticas da Inglaterra na Copa do Mundo 2026: xG sofrido e recuperações de bola no último terço

Construindo conexões no ataque

Tuchel fez muitas trocas de igual por igual no ataque, quase sempre sem a variedade de perfis necessária para mudar a dinâmica. Na prática, a mudança mais influente da organização ofensiva na Copa veio nos triângulos pelos lados. Contra a República Democrática do Congo, nos 16 avos de final, Declan Rice foi deslocado para a lateral direita, formando um triângulo com Bukayo Saka e Eberechi Eze naquele lado.

Claro que os três já tinham sintonia no clube, depois de chegarem à Copa como campeões da Premier League pelo Arsenal. Conhecem os pontos fortes e fracos uns dos outros, os movimentos que fazem e a forma de se conectar.

Tuchel testou várias combinações de lateral e ponta na Copa. Anthony Gordon e Marcus Rashford revezaram pela esquerda, com Noni Madueke e Saka alternando pela direita. Reece James, Jarell Quansah, Djed Spence e Nico O’Reilly começaram jogos nas laterais.

O alemão também deixou em casa a possibilidade da conexão de Newcastle entre Gordon e Lewis Hall.

Falta de perfis

Mas não era só uma questão de sintonia no ataque. Tuchel também tinha pouca variedade de perfis criativos, com a maior parte do setor ofensivo escolhida para oferecer corridas em profundidade para Harry Kane, em torno de quem o sistema claramente foi construído.

Análise tática: os novos triângulos que Thomas Tuchel pode montar na Inglaterra com Alexander-Arnold, Hall, Gordon e Palmer
Imagem via JLA Tactics Board

Tuchel convocou vários nomes novos para a lista mais recente, jogadores capazes de oferecer qualidades diferentes pelos dois lados.

Trent Alexander-Arnold traz um passador criativo de que o time precisava muito. Não só a partir de zonas baixas, mas também quando avança alto e aberto para cruzar com qualidade, algo que pode ser vital contra times que defendem baixo. A volta de Hall dá boas opções pela esquerda também: um lateral de condução, que sabe jogar com Gordon.

Cole Palmer poderia ser uma opção excelente a longo prazo para a vaga de camisa 8/10 pela direita. O jogador do Chelsea foi convocado na esperança de trazer confiança para fazer as coisas acontecerem em espaços curtos. Mas ele foi cortado da lista por controle de carga, depois de ser muito exigido no Chelsea. Morgan Gibbs-White entrou no lugar dele e também oferece boas características, depois de um início forte no Nottingham Forest.

Alex Scott oferece uma versatilidade brilhante e qualidade com a bola em espaços apertados, sobretudo se jogar como um dos camisas 8 que também recuam para apoiar o volante. Rio Ngumoha pode virar o melhor ponta de um contra um da Inglaterra, com capacidade de ir por dentro e por fora, vencer o marcador e ser sempre positivo nessas situações.

Mudando a postura defensiva

O trabalho mais difícil de Tuchel nos dois anos até a Euro 2028 é mudar as intenções dentro do grupo. Não só em relação às diferentes estruturas defensivas, mas também à cultura e à clareza com que cada uma é executada.

Análise tática: a pressão passiva da Inglaterra contra a Croácia na Copa do Mundo 2026
Imagem via JLA Tactics Board

A Inglaterra usou várias ideias diferentes sem a bola durante a Copa. Foi muitas vezes mais passiva na pressão da frente, começando zonal e bloqueando espaços, antes de ter referências individuais para saltar e aplicar pressão.

Com a pressão mais passiva e um estilo de jogo direto, a Inglaterra se viu empurrada para trás com frequência.

O lado ruim do sucesso

O contexto de cada jogo importa. Na vitória sobre o México, os Three Lions recuaram para um bloco baixo depois de ficarem com 10 em campo.

Análise tática: o bloco baixo da Inglaterra contra o México na Copa do Mundo 2026
Imagem via JLA Tactics Board

Funcionou, e a Inglaterra teve sucesso parecido ao defender baixo contra a Noruega. Mas isso fez o time passar a confiar muito mais na estratégia de bloco baixo do que na sua pressão, que não funcionava.

E aí chegamos à semifinal. A Inglaterra tentou pressionar na frente no começo, com Gordon e Morgan Rogers saltando sobre os zagueiros da Argentina. Kane marcava Leandro Paredes na posição de camisa 6, e os três meio-campistas ingleses marcavam individualmente as peças centrais argentinas, que rotacionavam.

Análise tática: a pressão homem a homem da Inglaterra contra a Argentina na semifinal da Copa do Mundo 2026
Imagem via JLA Tactics Board

Os laterais estavam prontos para saltar sobre os seus pares na pressão, com os zagueiros deslizando para tapar os buracos. Com essa abordagem, a Inglaterra conseguiu limitar a Argentina a fases de posse sem fluidez.

Futebol negativo

Mas depois do gol inglês aos 55 minutos, tudo mudou. E é aí que Tuchel tem uma grande missão: impor a abordagem e a cultura corretas em cada momento.

Análise tática: a Inglaterra recuando para um 4-4-2 baixo depois de abrir o placar contra a Argentina
Imagem via JLA Tactics Board

A reação imediata da Inglaterra foi recuar depois de abrir o placar, desabando aos poucos para o próprio campo e se acomodando num 4-4-2 baixo e mais zonal.

Dá para argumentar que isso vem do sucesso do bloco baixo nos jogos anteriores e das preocupações com a pressão. Ou até de uma questão cultural que atravessa o grupo e leva a negatividade e dúvida, em vez de positividade e fogo.

As mudanças defensivas de Tuchel alimentaram essa postura, mesmo com o alemão dizendo que queria uma Inglaterra mais ativa do que passiva ao defender. Independentemente da troca de esquema, a semente da dúvida já tinha sido plantada e crescia.

Nos próximos dois anos, a começar agora, o maior desafio de Tuchel será criar uma cultura de confiança em todas as fases defensivas, dar clareza às ideias e mudar a forma como a Inglaterra lida com os grandes momentos, para que esteja pronta na Euro 2028 caso se encontre de novo numa semifinal ou final contra uma das grandes seleções.

Mais sobre a Inglaterra: veja a nossa seleção combinada de Inglaterra x Espanha pelo Comparison Matrix.