
A Espanha passeou pela Copa do Mundo 2026 e agora espera a Argentina na final.
Antes de tudo, é importante lembrar que nenhum jogo é ganho antes de a bola rolar. A Roja já era, com razão, favorita mesmo antes de o adversário na final ser confirmado. Mas a Albiceleste fez a sua parte para chegar lá. É só que as circunstâncias e o encaixe tático devem dar à campeã de 2010 uma certa vantagem, seja no aspecto técnico ou no tático, sem falar na parte física, considerando tudo o que a Argentina passou. Uma prorrogação naquela semifinal teria sido um sonho para os espanhóis. Confira o nosso guia da Copa do Mundo 2026.
Neste artigo, vamos abordar
- O jogo dos números
- Uma fraqueza não testada?
O jogo dos números
A Espanha é famosa pelo tiki-taka, o futebol de um toque e passes rápidos. Mas não é só a estética que sustenta o estilo, e sim as vantagens que ele gera. Luis de la Fuente arma o time num 3-2-5/2-3-5 com a bola. A ideia de ter cinco homens esticando a largura do campo lá na frente é simples: ou dá à Espanha superioridade numérica contra linhas de quatro, ou obriga o adversário a responder com cinco defensores, o que, por consequência, entrega o domínio territorial.

A França, por exemplo, se recusou a defender com uma linha de cinco, optando por um 4-4-2/4-4-1-1 fechado. Essa escolha de Didier Deschamps, somada às deficiências defensivas, sobretudo pela direita, com Michael Olise e Ousmane Dembélé, fez com que a Espanha não tivesse dificuldade em gerar vantagens por aquele lado. E de formas espantosamente simples: movimentos e rotações fáceis para colocar corredores à frente dos defensores. Sempre que um dos pontas dos Bleus ainda não tinha voltado, os zagueiros espanhóis aceleravam o jogo e exploravam o espaço à frente.
Jules Koundé provavelmente se sentiu numa ilha, de tão sozinho que ficou contra dois atacantes espanhóis. Seja por envolver Olise e Dembélé com facilidade, seja por trocar o jogo rápido da direita para a esquerda enquanto a França tentava pressionar alto, o defensor do Barcelona encarou Marc Cucurella e Dani Olmo/Álex Baena em situações de um contra dois várias vezes.

É verdade que a França nunca foi uma força defensiva nesta Copa. Mas a Argentina também não: ela cedeu não só chances, mas longos períodos de domínio a adversários mais fracos, como Egito, Cabo Verde e Suíça. Passes e movimentos bastaram para a Espanha atropelar a França. O gol de Pedro Porro foi um exemplo perfeito: eram três espanhóis contra quatro franceses, mas dois deles (Manu Koné e Désiré Doué) deixaram o lateral do Tottenham invadir a área completamente livre.
Para se ter ideia, a Roja gerou vantagem atrás de vantagem contra os Bleus completando apenas dois dribles no jogo inteiro. A principal (e única?) contribuição de Lamine Yamal foi antecipar Lucas Digne e ganhar um pênalti. Com a bola, porém, o jovem quase não ofereceu nada. O que está tudo bem, porque a Espanha simplesmente não precisou.

Uma fraqueza não testada?
A Espanha joga um futebol muito seguro. Ao mandar um certo número de jogadores ao ataque, obriga o adversário a recuar e, com jogadores técnicos o bastante para manter a posse, usa a bola como arma defensiva. Mas eles são humanos e erram. Ironicamente, quem mais expôs isso até agora foi o Uruguai, na fase de grupos. O time de Marcelo Bielsa registrou o menor PPDA (passes por ação defensiva) de qualquer adversário da Espanha no torneio, e ainda assim foi um número relativamente alto.
| Adversário da Espanha | PPDA |
|---|---|
| França | 16,4 |
| Bélgica | 14,5 |
| Portugal | 21,1 |
| Áustria | 13,1 |
| Uruguai | 12,0 |
| Arábia Saudita | 34,7 |
| Cabo Verde | 96,3 |
É claro que mostrar mais intenção de recuperar a bola, por si só, não significa nada. Mas foi justamente a Celeste quem forçou o maior número de recuperações altas (18) e posses cedidas no próprio campo de defesa (11) pela Espanha em qualquer jogo da Copa 2026.

Ainda assim, o Uruguai alternou momentos de pressão alta com blocos médios e até baixos. Por isso o PPDA ficou em apenas 12,0. Para efeito de comparação, a Alemanha tem o menor PPDA do torneio, com 7,6. A Espanha ainda não enfrentou um time realmente disposto a obrigá-la a jogar na bola longa ou a atrapalhar o seu estilo. É claro que a ameaça de Lamine Yamal e de outros corredores no banco (Nico Williams, Ferran Torres) dá a ela uma resposta para isso.
E Luis de la Fuente parece flexível o bastante para ter uma versão mais vertical do time. Contra a França, 10,2% dos passes da Roja foram longos, número que estava em 7,1% enquanto o jogo estava empatado, já acima da média de 5,7% no torneio. Mesmo os passes longos são trabalhados e mirados, não chutões, mas é um plano B que o treinador tem à mão.
Mesmo no estilo de passe curto, porém, a Espanha pode ser vulnerável. Quando o Uruguai pressionou, ela entregou a bola várias vezes. Isso também aconteceu contra Portugal, apesar de Roberto Martínez ter dado tempo e espaço para a Espanha sair jogando. Só que ela chegou à final sem nunca ser testada de verdade nesse ponto. E pode ser tarde demais agora: dos dois adversários possíveis na final, a Inglaterra talvez tivesse o perfil de jogadores para tentar, mas não as pernas nem a energia; a Argentina, provavelmente, não tem nenhum dos dois.
A Espanha pode ganhar tudo sem nunca sair da sua zona de conforto, o que é um atestado da sua filosofia, que começa lá nas categorias de base, treinadas pelo próprio De la Fuente no início da carreira. É claro que a Argentina vem de quatro rodadas fazendo o impensável: vitória na prorrogação sobre Cabo Verde, virada sobre o Egito, vitória no fim contra a Suíça e nova virada sobre a Inglaterra. A Espanha pode ter a lógica a seu favor, mas o que a Albiceleste provou até aqui é que isso não conta muito.
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