Home » Especiais » Análise tática: o bom, o ruim e o feio do ataque “JPMorgan” do Chelsea

Análise tática: o bom, o ruim e o feio do ataque “JPMorgan” do Chelsea

Xabi Alonso vive um início irregular como técnico do Chelsea.

Os Blues venceram os três primeiros jogos oficiais sob o comando do espanhol, mas conseguiram apenas uma vitória nas últimas quatro partidas. Perderam duas delas, incluindo o 3 a 0 para o Brentford antes da data Fifa.

O principal ponto positivo da era Alonso até aqui é o poder de fogo do seu trio de frente. Cole Palmer, Morgan Rogers e João Pedro somam 14 participações em gols depois de apenas cinco jogos na temporada. Como acontece com muitos trios ofensivos, o do Chelsea ganhou apelido: foi batizado de “JPMorgan” e também de “CPR”.

Há muitas coisas boas na organização ofensiva de Alonso, mas também vários fatores que precisam ser analisados para entender as trocas que ele está fazendo e o sucesso a longo prazo do ataque dos Blues.

Neste artigo, vamos abordar

  • Como o trio se compara
  • As condições de ataque
  • Conheça o seu elenco

Como o trio se compara

Palmer lidera entre os três na maioria das métricas de criação. O inglês marcou dois gols e deu duas assistências nos cinco primeiros jogos da Premier League. Ele tem média de 2,3 chances criadas por 90 minutos no campeonato e é quem mais completa dribles (1,9 por 90). Também é o mais disposto a finalizar, com média de 2,5 chutes por 90. Desses, 1,1 vai no alvo, mas apenas 11,76% viraram gol.

Comparação entre Cole Palmer e Morgan Rogers na Premier League 2026/27: chances criadas, dribles e passes certos

Rogers empata com Palmer nas 2,3 chances criadas por 90, apesar de ter apenas uma assistência no campeonato. Ainda assim, o reforço da última janela deu três assistências num só jogo, contra o Leeds United, pela Copa da Liga. O jogador da seleção inglesa também tem 1,9 drible certo por 90, de novo empatado com Palmer, mas leva vantagem nos toques na área adversária, com 6,0 por 90.

Por fim, João Pedro lidera o Chelsea em gols e assistências, mesmo tendo jogado só quatro das cinco primeiras rodadas. O brasileiro marcou três gols e deu três assistências, mostrando a mistura perfeita entre características físicas e criativas: média de 3,5 duelos aéreos ganhos e 3,0 faltas sofridas por 90, além de 7,3 toques na área adversária por 90 e 70% de aproveitamento nos dribles.

Mapa de finalizações e passes para finalização de João Pedro pelo Chelsea: três gols, três assistências e sete chances criadas

As condições de ataque

O Chelsea é o terceiro da Premier League em ataques diretos nesta temporada, com 11. Mas é o primeiro em ataques diretos que terminaram em gol, com dois.

Os Blues mostraram a intenção de atacar de forma bem mais direta nesta fase inicial do trabalho de Alonso. A ideia é achar o trio de frente com espaço aberto sempre que possível, de algumas formas diferentes. Nas três primeiras rodadas, o Chelsea tinha a segunda menor posse de bola da Premier League, atrás apenas do Hull City. Depois de cinco jogos, esse número subiu para 47,5%, com os Blues dominando a bola contra Hull e Brentford.

Análise tática: como o Chelsea de Xabi Alonso cria as condições para o ataque direto
Imagem via JLA Tactics Board

Absorvendo a pressão

Com menos bola, o Chelsea passou a absorver a pressão mais perto da própria área. Isso cria vantagens assim que a posse é recuperada, para atacar os espaços maiores deixados nas costas da defesa adversária.

Mas os Blues não criam essas condições só em transição. Eles também buscam ser diretos quando têm a bola, inclusive nas reposições de meta. O goleiro tem lançado longo na maior parte das vezes, procurando João Pedro e Rogers como pontos de apoio para ganhar território. É algo especialmente útil porque a maioria dos times pressiona homem a homem nas reposições.

Análise tática: a busca do Chelsea por verticalidade com um meio-campista baixando para a linha defensiva
Imagem via JLA Tactics Board

Em fases de posse mais organizada, o Chelsea segue tentando criar essa verticalidade para jogar mais direto nos espaços abertos, muitas vezes com um meio-campista baixando para a linha defensiva. O objetivo é puxar a pressão adversária para fora, deixando um grande espaço no meio do campo para os jogadores receberem e combinarem, mas também tendo corredores na última linha para esticar o jogo com movimentos em profundidade, que o Chelsea busca com lançamentos do meia que baixa.

As desvantagens

Esses métodos são ótimos para tirar o melhor do trio de frente. Mas podem criar desvantagens no equilíbrio geral do time, e as principais têm a ver com o controle da bola.

Ao buscar o ataque rápido assim que recupera a posse, o Chelsea costuma abrir um abismo entre as suas duas unidades, a defesa com o meio-campo de um lado e o trio de frente do outro. Isso deixa o jogo mais transitivo e caótico. Se o Chelsea não finaliza o ataque e perde a bola, aparecem espaços para o adversário acessar e machucar em transição.

Outra desvantagem é justamente a falta de controle com a bola, que permite ao adversário dominar a posse e ditar o ritmo. Isso aumenta a pressão sobre o setor defensivo, que precisa absorver muitas ações dos rivais no campo do Chelsea. Tudo isso contribuiu para o mau retrospecto defensivo da temporada: já são 12 gols sofridos em cinco jogos.

Conheça o seu elenco

Na hora de montar um ataque funcional no futebol, vale usar uma máxima popular do basquete: conheça o seu elenco. Perguntado sobre o trio e as conexões entre eles, João Pedro explicou:

“Com o Cole, eu tento sempre dar a bola no pé dele. Com o Morgan é mais no espaço, ou deixá-lo numa situação de um contra um. E o meu trabalho é só correr, que eles vão me achar!”

A fala mostra a sintonia que vem crescendo no ataque. Palmer e João Pedro já jogaram juntos na temporada passada, enquanto Rogers e o compatriota inglês eram amigos de infância.

Sempre que Palmer pega a bola, há uma clara intenção de João Pedro e Rogers de fazer movimentos sem a bola. Isso dá a ele o maior número possível de opções de passe, algo que aproveita as suas melhores qualidades. Alonso também deu a Palmer e Rogers liberdade para circular pela frente de ataque: eles começam pelos seus lados preferidos, mas têm licença para flutuar, fazer corridas pelas costas da marcação e criar superioridades.

Rogers costuma fazer essas corridas para apoiar Palmer quando ele está com a bola, atuando mais como um segundo atacante ao lado de João Pedro. A função do brasileiro é um pouco diferente: embora também busque os movimentos em profundidade e receba os passes dos companheiros, o perfil híbrido permite que ele contribua de várias formas.

A influência de Alonso

Alonso também conhece o seu elenco e vem criando as condições ideais para os seus atacantes. O espanhol sabe que Rogers rende mais em espaços amplos, onde pode conduzir por longas distâncias e chegar com velocidade ao último terço. Sabe que Palmer rende com espaço à frente para escolher o passe, com vários corredores atacando a profundidade. E sabe que João Pedro oferece uma mistura dos dois, com o físico e o jogo de costas para segurar a bola, mas também a técnica e a combinação para ligar as jogadas e criar perigo no campo de ataque adversário.

Agora a questão vira equilíbrio. Alonso consegue achar o ponto certo entre os ataques diretos que maximizam as qualidades do trio e o desenvolvimento de uma sintonia capaz de furar defesas mais organizadas, criando vantagens também num jogo mais lento e controlado no último terço?

Mais sobre a Premier League: veja as melhores estatísticas da rodada 5.