
“Vocês não vão ter outro Harry Kane.”
Foram as palavras de Thomas Tuchel depois de Kane marcar o seu 87º gol pela Inglaterra, na vitória sobre a República Tcheca.
Kane é o maior artilheiro da história da seleção inglesa e está a apenas três jogos de se tornar o jogador com mais partidas pelos Three Lions. Ele detém uma série de recordes, incluindo o de mais gols em Copas do Mundo e em grandes torneios, de forma isolada.
Mas a qualidade de Kane tem sido uma bênção e uma maldição. Por mais que seja ótimo ter um goleador do nível dele, os Three Lions colocaram todos os ovos na mesma cesta. Quando Kane está lesionado, ou cansado de tanto jogar, a Inglaterra sofre. E não há ninguém para substituí-lo de verdade.
Tuchel disse que uma solução terá de ser encontrada para repor Kane, seja agora ou daqui a 10 anos. A pergunta é: como a Inglaterra faz isso?
Neste artigo, vamos abordar
- Jude Bellingham
- As alternativas recentes de centroavante
- O caminho para o futuro
Jude Bellingham
Ao falar de outras opções, Tuchel citou Jude Bellingham. Mesmo nesta altura, com todas as qualidades de Kane, parece que boa parte do potencial de sucesso da Inglaterra depende de Bellingham. Ele é a estrela do espetáculo, como mostrou a Copa do Mundo.
Bellingham foi o artilheiro da Inglaterra na Copa, com sete gols, além de uma assistência. Só Kylian Mbappé (14) e Lionel Messi (12) participaram diretamente de mais gols do que os oito de Bellingham. Chegou-se a falar nele como favorito à Bola de Ouro caso a Inglaterra tivesse chegado ao título.
Entre os ingleses, só Kane (23) finalizou mais vezes na Copa do que Bellingham (19). Mas o jogador do Real Madrid liderou em chutes no alvo, com 13 e 68,42% de precisão. E houve qualidade na finalização: Bellingham acumulou 3,06 de gols esperados na Copa, mas elevou esse número para 6,95 de xG pós-finalização. Ou seja, mais do que dobrou as suas chances de marcar pela colocação dos chutes. Nesse quesito, o inglês foi o melhor finalizador da Copa.

Bellingham faz isso pelo clube e pela seleção. Desde a transferência para o Real Madrid, em 2023, marcou 37 gols em 94 jogos de La Liga. Isso o coloca em sétimo no campeonato no período, o que é excelente para quem não é centroavante. E sete desses 37 gols foram de cabeça, a sexta maior marca da liga.
O jogador de 23 anos faz tudo isso sem prejudicar a criação. Só quatro jogadores deram mais assistências na La Liga do que as 20 de Bellingham desde que ele chegou. E ele é o 11º em chances criadas no período, com 142. Pela Inglaterra, só Declan Rice (17) e Noni Madueke (nove) criaram mais chances na Copa de 2026 do que as oito de Bellingham.
As alternativas recentes de centroavante
Dominic Calvert-Lewin é o único outro centroavante de ofício na atual convocação da Inglaterra. E isso resume o problema. Não que Calvert-Lewin seja um jogador ruim. Mas ele tem 29 anos e só jogou 13 vezes pela seleção. Ollie Watkins e Ivan Toney ficaram fora da lista atual, mas estiveram na Copa. Somam 34 jogos pela Inglaterra, apesar de ambos terem 30 anos. Dominic Solanke também foi convocado neste ano, mas tem cinco jogos, tendo acabado de completar 29.
E nenhum deles chega perto de Kane. Embora Watkins e Toney se saiam bem na comparação, há o asterisco de os dois jogarem na liga saudita. O sucesso de nenhum deles será levado totalmente a sério, e cada convocação passará a ser questionada.
Isso apesar de Toney ter média de 1,5 gol por 90 minutos pelo Al Ahli nesta temporada, a partir de 4,2 finalizações sem contar as bloqueadas. Watkins tem sucesso parecido em termos de chances, com 3,8 finalizações sem contar as bloqueadas. E não está tão longe da média de gols de Kane: 0,9 por 90 contra 1,0 do jogador do Bayern de Munique. Watkins também tem sido criativo no Al Hilal, com 0,6 assistência por 90, embora Kane leve a melhor em chances criadas, com 2,5.
Deixando de lado Solanke, que teve poucos minutos nesta temporada, Kane tem, na verdade, o menor aproveitamento de finalização no seu campeonato, com 18,75%. Toney lidera essa disputa com 33,33%, e Calvert-Lewin vem em segundo, com 27,27%. O jogador do Leeds tem sido bastante preciso, acertando o alvo 1,5 vez a cada 2,0 finalizações sem contar as bloqueadas por 90. Nesse quesito, ele fica bem perto de Kane.
O caminho para o futuro
A longo prazo, a Inglaterra também pode olhar para o sub-21. Mas esse caminho não tem sido forte nos últimos anos. Eddie Nketiah é o maior artilheiro da história do sub-21 inglês, com 16 gols em três anos, mas fez só um jogo pela seleção principal. Solanke também está no top 10, enquanto Tammy Abraham, que se juntou ao colega formado no Chelsea com nove gols, fez apenas 11 jogos pela principal. Saido Berahino, autor de 11 gols pelo sub-21, hoje joga pelo Burundi.
Há esperança na geração atual. Will Lankshear só estreou pelo sub-21 nesta data Fifa, saindo do banco para marcar contra o Cazaquistão. Lankshear, hoje no Middlesbrough, é o segundo inglês com mais gols nas quatro principais divisões do país, com seis em oito jogos. É uma evolução em relação à temporada passada, quando fez 11 gols em 44 jogos de Championship pelo Oxford United.
Lankshear entrou no lugar de Divin Mubama, que é hoje o principal nome do sub-21. O centroavante do Southampton tem cinco gols em oito jogos, todos nas Eliminatórias da Euro sub-21, com a Inglaterra buscando a vaga para defender o título. Mubama não tem feito uma temporada tão forte pelo Southampton, com um gol em oito jogos, mas ficou restrito a apenas 122 minutos. Isso pode pesar contra ele a longo prazo, sobretudo quando surgir a chance de entrar na seleção principal.
A culpa maior, porém, é da própria Inglaterra. É preciso ser melhor em trazer jogadores mais jovens para o time e dar chances a eles. Se não, a Inglaterra vai desmontar assim que Kane encerrar a carreira.
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